Perdido em pensamentos tristes, como se fossem estradas sem
saída… Onde as placas que supostamente deveriam
indicar uma direcção, ainda me arrastam mais para o
beco. Reflectindo no meio da escuridão, no beco, onde os
poucos lampiões que aqui existem, apenas iluminam os
compartimentos pequenos e fechados que suportam as lâmpadas,
tépidas, onde a pouca luz que emanam se perde na forte e
fria escuridão. Caminho sem destino, não dado como
vencido pelo demónio, mas sim, em fase de
recuperação pelo anjo que cuja presença quase
nem se nota. Será estratégia? Não sei, nem
tenho como saber, estou só, perdido num beco sem
saída e sem ajuda suficientemente forte para me socorrer. De
alguma forma, ainda sinto no meu ser uma vontade estranha de abrir
caminhos, como se dentro de mim fosse, em algum momento, surgir uma
grande lanterna de luz branca e reconfortante, tão forte que
fosse capaz de desferir a escuridão que me envolvia de uma
forma tão crua, fria sem o mínimo aviso! E a luz que
não tinha meio de aparecer, e eu estava ali andar sem rumo
tropeçando, naquilo que outra hora teria chamado
obstáculo, e que agora só lhe chamo, fruto do meu
fracasso! SEM saber para onde ir, e onde ficar decido a continuar a
andar, sem um rumo especifico, condenado a andar no ar
fétido e escuro que nem breu, tentando buscar um pouco de
luz naqueles lampiões inúteis, que de alguma forma
ainda me iluminavam a vista, cega de tudo, deturpada pelas
ilusões e dores da vida. Talvez até esta me tenha
abandonado, como se de um despedimento se tratasse, com justa causa
talvez. Confronto-me com a realidade, de que de facto estaria a ser
abandonado, por tudo e todos, até por aquilo que era meu por
direito físico, os meus sentidos enfraquecidos, meus
músculos quase sem resposta aos mandatos cerebrais, minha
vista tão fraca e quase tão envolvida pela
escuridão, que quase acredito que tenha abandonado o seu
habitat. Estou só e sem forças, quase tentado a ceder
á proposta que o demónio me fez, mesmo sem saber qual
seria, existia. Tenho consciência que será a luta
incessante entre o bem e mal que nos cerca a todos, e depende de
cada um vence-la pelo bem ou pelo mal… No meu caso dada a
situação em que me encontro quase acredito que o mal
esta a vencer esta batalha, mesmo sabendo que o mal jamais
trará o bem ao meu mundo, sabendo também que o bem
vai vencer. Já sinto o pulsar da luz que me acompanha pronta
a investir, mas não reajo todas a forças que tenho
são para poupar, para assim que me for dado o primeiro sinal
de investida, reagir. Luto incessantemente, perdido na penumbra sem
o apoio alheio…Não consigo explicar as minhas razoes,
nem explicar o porque de estar aqui no meio de
“nada”… Desisto de andar as voltas, desisto de
pensar, sento-me e respiro fundo, como se no meio de tanta
escuridão fosse encontrar a razão pela qual eu
estaria ali, num beco no meio da escuridão, perdido em mim e
na ausência de luz. Tenho de pensar, no objectivo, na
lógica da “coisa”. Começo a ver-me
reflectido nos lampiões, como se eles fossem
“eu” e “eu” eles, numa luta frustrante de
trazer luz á escuridão. A luz que pulsa dentro de
mim, a luz da minha razão de viver, a luz que aguenta o
bater do meu coração, em todos os momentos
desesperantes porque passei… A luz que ainda se esconde por
detrás da tristeza que é transportada pelos meus
olhos, a luz que ainda não me deixou de esboçar um
sorriso. Chego assim no meio de esta reflexão que nunca
estou só, e nunca estive…isto é uma batalha e
eu não tenho defesas, para reagir á forte investida
do medo de que realmente estaria ali, para sempre?! Calma…
Respira… 1…. 2… 3… -Relaxa, vais
conseguir – Diz a voz ao meu lado. Caio redondo no
chão, sem forças para acreditar que no meio daquilo
tudo, ironicamente, estaria a ouvir vozes!!! De quem?
Estupidamente, procuro em todas as direcções
laterais, quem apenas por magia falava comigo! Não conseguia
ver, estava escuro, mesmo assim esta continuou a falar, de uma
forma diferente…. Partia de mim, ou seja, de dentro de mim!
Medo, desespero, talvez se apossaram de mim naquele instante. Ela
falava e a minha alma entendia, chorava e eu ouvia! Relaxa, ouve-me
com atenção, sabes o que isto é? Respondi
negativamente, lógico que não sabia, se assim fosse
já teria saído deste sítio sinistro! Isto,
és tu, tu sorris, mas por dentro choras por cada sorriso que
faças, nestes momentos em que chegas-te ao teu crash
pessoal, mesmo assim não choras! És forte,
independente, mas mesmo assim deliras em busca de uma saída.
Sem perceberes e sem eu te dizer vais encontra-la! Estou aqui hoje,
para te ajudar, embora só te possas ajudar fisicamente, eu
ajudo-te espiritualmente e psicologicamente. Chegas-te a algo muito
importante neste local teu, percebes-te que talvez nunca estiveste
só, percebes também que não há
razão para ódio? Procuras o amor em todo o lado, como
se fosse a tua única salvação, e é! Mas
alguma vez pensaste em te amares? Alguma vez pensas-te em
substituir este beco por algo mas fresco, mais iluminado? O amor
não é a obrigação de te amarem mas a
ausência dessa obrigação, onde a
obrigação da lugar a uma vontade,
incontrolável de estar ali naquele momento respirando,
estando, olhando mundo e gritar que o amor nos tocou. Mas nunca se
chega a este ponto tão alto, e porquê? Porque o amor
não é controlado por nós, mas é ele que
nos controla e se aceitares isso e fizeres parte dessa corrente, ai
sim terás o amor! O amor que procuras, procuras guarda-lo
numa caixa para que não possas, alguma vez fraquejar, nem tu
nem o outro, para que as coisas permaneçam ali congeladas no
tempo. Bonitas, controláveis e invejáveis….
Não! O Amor não é isso, o amor existe em tudo,
tudo o que vemos, o que sentimos, tocamos, cheiramos, não
é palpável, logo não se controla. Aí
tudo mudou em ti… a luta incessante, levou-te á
frustração, á arrogância, desprezo, por
ti e pelos outros… Por isso estas aqui no beco sem
saída, que quero que compreendas que quem o criou foste
tu… Em falta de amor, procuras-te o seu fiel amigo
“ódio” que não passa de algo
imaginário. O ódio é a obrigatoriedade
constante da presença de um sentimento congelado, de
sentimento frio, arrogante, que alimenta a tua sede de do,
vingança talvez, doentio também… Nada é
importante para ti… Deixaste algo apara trás e
precisas de descobrir do que se trata. Será o amor?
Lembra-te o Amor, está em todo o lado, em tudo o que tocas,
vez e sentes. Lembra-te também que amor existe em
sítios inimagináveis, o amor identifica-se…
apenas, sem grandes quebra-cabeças, sem grandes
esforços. As vezes basta fazer um shut-down, como se
nascesses outra vez para sentires tudo de novo! Encontra-te em
ti… E deixaras de ver apenas o teu reflexo no
lampião, inutilmente fracassado. Como serás o
lampião que ilumina tudo, traz luz a vida daqueles que
precisam, e por vezes ilumina os nossos caminhos escuros!